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Se estacionar aqui, vou arrebentar seu carro com o taco de beisebol

Se estacionar aqui, vou arrebentar seu carro com o taco de beisebol

Eu tava ontem trabalhando com o Codex e ele, ao descrever por que fluxos duplicados eram problemáticos, me disse: "duplicar fluxo é uma maneira sofisticada de cultivar desobediência."

Minha intenção era refatorar um trecho de código e esperava uma resposta técnica, não filosófica. E então percebi que ele tá fazendo comigo o mesmo que faço com ele. E resolvi escrever este artigo.

O teatro de compliance

A maioria dos system prompts corporativos tem a mesma energia de um treinamento de RH: correto, abrangente e invisível. Você lê no automático, concorda por obrigação e sua vida segue igual. O modelo de IA faz o mesmo.

Há um problema estrutural nisso que eu observo todo dia (tá longe de ser ciência, mas se você trabalha com agentes em produção, sugiro que faça o teste): quanto mais longo e genérico o prompt, mais o modelo trata cada instrução como sugestão ponderada em vez de regra. Uma lista de trinta diretrizes em linguagem de política interna produz um agente que segue umas vinte, ignora seis e interpreta as outras de um jeito meio torto.

Pedi pra IA me explicar esse fenômeno e ela disse que era "atenção distribuída num texto que não sinaliza onde prestar atenção". É sempre gratificante quando descubro que não tô louco.

Na prática: a IA não é obrigada a ler o seu prompt com atenção. Ela lê na diagonal, saca? O que parece importante tem mais peso. Texto genérico vira paisagem. Você escreveu "TRINTA DIRETRIZES OBRIGATÓRIAS!" e ainda assim o modelo pode ignorar metade. E não avisa. Igualzinho você faz quando dá check em políticas de uso sem ler patavina.

O que o treinamento ensinou à IA, sem querer

Se estacionar aqui, vou arrebentar seu carro com o taco de beisebol

LLMs foram treinados com texto escrito por humanos. Bilhões de exemplos de como humanos escrevem quando se importam com o que estão dizendo, e de como escrevem quando não se importam. O alinhamento refinou isso: o modelo aprendeu a reconhecer intenção, urgência, consequência.

Uma frase com opinião sinaliza que o autor tinha algo em jogo naquele ponto. Texto corporativo sinaliza que foi escrito para existir, não para ser lido.

Não consigo te explicar o mecanismo em termos muito técnicos. O que posso dizer é que uma instrução vaga compete com milhões de frases igualmente vagas, enquanto uma instrução com personalidade é mais difícil de tratar como ruído de fundo.

Pense numa placa "Proibido Estacionar" comum. Agora pense numa placa escrita à mão: "SE ESTACIONAR AQUI, VOU ARREBENTAR SEU CARRO COM O TACO DE BEISEBOL". As duas proíbem a mesma coisa. Uma delas vai ser mais lembrada, e mais respeitada, que a outra.

O conhecimento que não migrou

Eu trabalho com UX e publicidade há décadas e escrevo system prompts profissionalmente desde 2022. Não é coincidência que as duas coisas estejam na mesma frase.

UX writing para humanos aprendeu com copywriting e publicidade. Décadas de refinamento sobre como fazer texto funcionar quando atenção custa caro. Esse conhecimento migrou, foi adaptado e virou disciplina.

Prompt engineering não aprendeu com ninguém. Foi inventado, quase sempre, por quem nunca precisou usar texto escrito pra convencer alguém de coisa nenhuma.

O resultado é previsível: um redator publicitário que passou a carreira tentando escrever uma frase de doze palavras que convença alguém a comprar algo de que não precisa provavelmente entende mais de compliance comportamental do que a maioria dos engenheiros que escrevem documentação de agente.

O risco. Porque claro que tem um risco, ou tu achou que era só mandar ver num prompt esquisitão e correr pro abraço?

Atitude em excesso compete consigo mesma. Se cada instrução é urgente, nenhuma é. Os redatores publicitários conhecem bem esse problema, inclusive.

Humor que obscurece a instrução não serve. Humor só funciona como reforço, depois que a regra está clara. Se o leitor, humano ou não, precisar parar pra entender a piada antes de entender a instrução, você perdeu os dois.

O equilíbrio é atitude nos guardrails e neutralidade na estrutura. Nos pontos em que o comportamento do agente precisa ser inviolável, use linguagem que não deixa margem de interpretação, ponto. O resto pode ser prosa funcional.

O desafio do "prompt engineering" (desculpe, não consigo escrever isso sem aspas) não é técnico. É fazer alguém prestar atenção. O redator sabe escrever pra quem não quer ler. O engenheiro sabe construir o sistema que vai processar. Nenhum dos dois, sozinho, resolve. E a profissão que junta os dois ainda não tem job description.