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Marquei um encontro com uma insurtech, à meia-noite, numa encruzilhada

Marquei um encontro com uma insurtech, à meia-noite, numa encruzilhada

Ato I: A tentação

Era uma manhã comum em São Paulo, exceto pelo fato de que minha lista de tarefas estava entulhada de coisas que não tinham nada a ver com trabalho. O carro corporativo havia sido devolvido junto com meu crachá e agora, entre outras tantas pendências, eu precisava resolver a contratação do seguro para meu novo veículo.

Como alguém que passou os últimos anos desenhando IAs e jornadas para seguradoras, fiz a coisa óbvia: mandei um zap pra um amigo pedindo indicação de corretor. ;)

— Corretor? Claro! O Daniel! Ele é ótimo! Eu, a Fer, o meu pai, a minha irmã, os meus primos, até o meu vizinho... todo mundo só faz seguro com ele. Vai que é boa!

Fiquei completamente entregue. A julgar pela recomendação, o tal Daniel deve entender mais de seguro que o Gustavo Leança. Sem questionar, mandei um zap e, em coisa de 30 minutos, recebi um PDF feioso com as cotações de várias das principais seguradoras do país.

Foi então que, como uma personagem secundária que de repente rouba a cena, destacou-se ali uma azarona: uma insurtech oferecendo as mesmas coberturas (às vezes, mais) por uma fração do preço. E na boa, quando eu digo fração, tô falando de 1/3. Tipo, não tinha como passar batido.

— Ah, bicho... isso é golpe!

Daí fui olhar o site dos caras e achei bonitinho, design modernoso e tal. Tudo certo. Caí em mim e me senti meio ingênuo — Claro que tá tudo certo, é o site deles, foram eles que fizeram! No Reclame Aqui vai ter a ficha corrida desses caras! Não tinha. Aliás, tinha, mas tava tudo certo. Aliás, bem acima da média. Daí pesquisei os investidores. Nada que desabonasse a tal empresa.

Eu já tava ficando sem argumentos para a minha autocontraargumentação.

Juro que pensei em ligar pro Leança, mas a tentação de pagar menos falou mais alto e liguei mesmo foi pro Daniel, que cravou sem pestanejar:

— Pode ficar tranquilo, eles são ótimos!

Dei um sim e recebi um link que me instruiu a baixar um app pra concluir a contratação. Jornadinha lisa, suave, tranquila. Nesse momento, aquele Tharsinho desconfiado da proposta já estava apreciando o flow da UX. Vamo aí, meu povo.

GIF da jornada do app

Foi quando, não mais que de repente, o app, sentindo que eu já estava seduzido, revelou seu lado Black Mirror: entre uma foto de CNH daqui e um número de Renavam de lá, ele pediu, ou melhor dizendo, exigiu, acesso total aos sensores do celular.

— Opaaaa! Pera lá!

Na "era da hiperpersonalização", eu entendo que empresas queiram conhecer seus clientes, mas a julgar pelo que tava pedindo, aquele app não queria apenas me conhecer — queria era me estudar. Aquilo não era um compartilhamentos de dados – tava mais pra um strip tease!

Cada maldito sensor do celular seria liberado: o acelerômetro seria meu personal radar de velocidade, o giroscópio seria o detector das minhas barbeiragens, o GPS se transformaria num CET incorruptível atento a qualquer cariocada (ops!) que eu ousasse fazer ali no retorno do quarteirão de cima.

Resumindo, se eu assinasse aquilo, transformaria o ato de me deslocar pela cidade numa espécie de Big Brother em que as chances pareciam estar todas contra mim.

Ah, sim, há uma contrapartida: pra justificar a proposta indecorosa, os caras dizem que, no caso de você pontuar bem, ganha descontos e promoções.

— E se eu pontuar mal?, pensei, com um pé na realidade. Well, se depois de um mês, acharem que o seu perfil de risco não vale a pena, eles têm a prerrogativa de não renovar o seu seguro no mês seguinte. Tendi.

Lembrei que, lá por 2015, participei de um projeto de app de seguro de auto para uma empresa estadunidense cuja premissa era muito parecida... e na época, fiquei incomodado com o que me parecia ser uma violação da privacidade do usuário. Ao questionar, ouvi um "Ah, mas só aceita quem quer!" que nunca me convenceu. Mas aí o tempo passa.

Ato II: O Robert Johnson, com seu violãozinho, chegando na encruzilhada

Robert Johnson na encruzilhada

Pois é. Eu pesei, ponderei, blasfemei contra a tal proposta. Daí fui trazendo as questões teóricas para a vida prática... e por fim, cheguei à conclusão de que a minha maior questão tinha a ver mesmo com a minha (in)capacidade de resistir a dar o gato ali no retorno proibido da rua de cima — um pequeno delito que eu já encarava como um direito adquirido.

Respirei fundo, tentei pensar que, se o mundo chegou ao ponto em que está, não foi por minha culpa... e cliquei na opção "aceitar me sujeitar à vigilância eterna em troca de algumas migalhas" e pronto, tranformei meu carro num game sobre rodas.

E não, não é metáfora: o app monitora tudo e cada curva, freada, acelerada se converte em pontos — positivos ou negativos. Se você para no semáforo e resolve checar o WhatsApp, já leva uma bronca pra deixar de ser besta.

Screenshot do app de monitoramento

De cara, uma ida ao supermercado se torna uma competição contra você mesmo, com ranking e relatório detalhado de performance.

É tipo um inferno, só que gamificado — as crianças pedem pra ouvir o álbum novo do Planet Hemp e eu digo que não posso encostar no celular. Pelo espelho, os vejo se entreolhando, confusos com a novidade. Passo a me sentir ridículo e tenho a péssima ideia de pedir ajuda à Siri, que parece ter respirado mais fumaça do que os integrantes da banda — Supera, Tharso. Pensa que, ao menos, agora as crianças estão gargalhando.

Ato III: A Rendição

Mas em que pese toda essa desgraça, é nesse caos que começa a beleza da coisa. Se você chegou até aqui esperando meu manifesto contra a vigilância digital, prepare-se para uma decepção: vou te contar uma coisa que provavelmente deixaria o meu eu de 2015 meio indignado.

Sabe aqueles roteiros manjados de filme da sessão da tarde (ainda existe sessão da tarde?) em que as personagens passam o filme todo se odiando e então, num belo dia percebem que passaram a se gostar? Pois é, depois de 1 mês xingando a seguradora, preciso admitir que me apeguei à vigilância. Não pelos descontos, que, ao longo de um mês inteiro, não pagariam um chope (talvez até paguem o chope, mas não o uber pra voltar pra casa), mas porque me dei conta de que, afinal, estou dirigindo melhor.

Menos ultrapassagens, menos freadas bruscas, mais atenção — não que eu fosse o Pateta-Mr Hyde antes, não me entenda mal, mas agora, mesmo se eu estiver com pressa, entro no carro já pensando no aplicativo prontinho pra me caguetar. E quando esqueço, ele faz questão de me lembrar.

Não estou aqui fazendo propaganda e nem simplificando questões de consentimento e privacidade. De fato, ainda me incomodo com o fato de que dirigir agora é construir um dossiê digital sobre mim mesmo. Mas a vigilância que eu tanto criticava está se mostrando... libertadora — putz, nem acredito que acabo de escrever isso.

O Solo Final

Dashboard de performance

O app me diz que já atingi a nota máxima nas curvas e tô quase perfeito em "direção focada". Agora, preciso melhorar em frenagem e aceleração.

Acho que, no mínimo, encontrei uma boa metáfora para a minha vida: me viro bem nas reviravoltas, mas ainda preciso melhorar quando o assunto é acelerar ou dar aquela freada. Quem diria que uma funcionalidade que eu passei anos criticando me traria uma epifania de autoconhecimento?