Criei um GPT para te ajudar a tomar decisões
Atualização: em março de 2026, transformei o GPT em uma Claude Skill. Ela está disponível no meu repositório de skills no Github.
Há algo ironicamente poético em usar inteligência artificial para entender melhor nossos próprios sentimentos e tomar decisões mais acertadas. Essa foi a fagulha que me levou a criar Decisã, um GPT que transformou um baralho em uma conversa. A história envolve uma coleção de frameworks em formato de cards, um pouquinho de ócio criativo e aquela mania bem UX de querer melhorar coisas que já funcionam bem.
Pensando aqui com o meu baralho
Nunca fui metódico, mas sempre tive uma queda por metodologias – Freud explica. Minha relação com frameworks em formato de baralho começou como a maioria dos vícios: despretensiosamente. Um deck aqui, outro ali, e quando dei por mim, tinha uma coleção que faria um cartomante corar de inveja. Tem baralho para desbloquear a criatividade, para criar storytelling, para eliminar vieses cognitivos — tem até um deck que ajuda a explicar sentimentos para crianças. Enquanto organizava minha coleção, bateu a epifania:
E se eu transformasse um desses baralhos em uma IA?
De cara, percebi que seria divertido e a escolha, meio aleatória, recaiu sobre o DECISION, um baralho que tenho há anos e que, como o nome pouco sutil já revela, se propõe a ajudar na tomada de decisões.

Desafio: como criar uma experiência que preserve a objetividade do baralho, mas ofereça o acolhimento que esperamos de uma conversa de verdade?
Transformar um framework em uma IA não é simplesmente digitalizar cards. Há um trabalho grande de UX a ser feito.
No baralho físico, as cartas são frias e diretas. Isso não incomoda por uma razão óbvia: o baralho é um só para todo mundo, para todas as decisões da galáxia. Se você está pensando em ter o terceiro filho, fugir com o vizinho ou trocar o sofá da sala, o deck é o mesmo. Todas as adequações são feitas na cabeça do usuário — e funciona bem. As cartas não estão conversando com você e, portanto, não precisam de rodeios ou almofadas emocionais. Você não está buscando empatia naquele cartão azul-escuro; tudo o que espera dele é uma estrutura para organizar seu pensamento — e é isso que ele te dá. A partir daí, é contigo.
Quando passamos para a IA, a dinâmica muda completamente. Agora, há troca. Não me entenda mal — sei que a IA não pensa nem sente nada, mas isso não significa que não haja uma troca valiosa acontecendo.
Olha só: você expõe suas angústias e a IA responde com um texto que parece compreender seu dilema. Ela pondera sobre as suas questões existenciais e te ajuda a explorar caminhos em busca de respostas. Por mais que você saiba (sabe?) que está conversando com um modelo de linguagem rodando em um servidor em algum lugar remoto do mundo, algo curioso acontece: forma-se um vínculo emocional — unilateral, sem dúvida, mas ainda assim significativo.
É nessa hora que a adaptação do deck físico para a LLM faz mais sentido. Enquanto as cartas de papelão são necessariamente genéricas, a IA conecta diferentes aspectos da sua resposta.
Vem comigo:
No baralho, quando você ignora uma carta inconveniente, aquela reflexão não acontece. No caso da IA, você também pode dizer que não quer responder a esta ou àquela pergunta, mas ela vai considerar sua não-resposta e, de um jeito sutil, tentar te fazer pensar sobre isso. Se, em algum momento, você mencionar medo de decepcionar alguém, ela fará uma nota mental (ops!) disso e voltará ao tema mais tarde, sob um ângulo diferente.
Este é o ponto em que você pode me dizer que está achando isso tudo um pouco assustador e olha, eu não tenho como discordar de você. É tão assustador quanto fascinante. Podemos falar disso em outro artigo. Aqui, agora, mantenhamos o foco ;)
A Engenharia do Diálogo
Nos últimos dois anos, primeiro por força do ofício e depois por masoquismo intelectual, mergulhei de cabeça no universo dos prompts.
Criei muitos deles para aplicações que conversam com o público, seja por texto escrito, por voz ou híbridos — voz sobreposta a uma tela, por exemplo.
Os mais desafiadores sempre foram os que se propunham a conduzir o usuário por uma jornada. Mas, na maioria dos casos, o objetivo era entregar "a resposta certa no tom adequado". Você pergunta, a IA responde — tá certo ou tá errado. E o tom? Bem, em geral, é aquele tom moderado e gentil, independentemente do Michael Douglas que estiver do outro lado da linha.
Ter uma "resposta certa" como KPI facilita muito a avaliação, desde que, é claro, essa resposta seja algo razoavelmente objetivo.
No nosso caso, não há uma resposta certa. A resposta está dentro de você. Decisã é uma ferramenta — nem mais, nem menos. O KPI aqui não pode ser a qualidade da decisão final do usuário, até porque a IA não vai decidir nada por ninguém.
Eu diria que os 3 indicadores a serem avaliados aqui são:
- O nível de entendimento e alteridade que ela consegue ter sobre os seus problemas;
- A qualidade dos questionamentos que ela faz;
- A forma como ela cria um ambiente seguro e facilita a expressão do usuário.
Indo além das respostas certas
Tom de voz: se você está escolhendo qual série maratonar, não há problema nenhum em brincar com a sua indecisão. Mas se está considerando ter outro filho, a IA precisa saber que é hora de baixar o tom e aumentar a empatia (mesmo que seja uma empatia algorítmica).
Naturalidade: outro desafio foi tentar dar a ela uma personalidade que não soe artificial ou excessiva. As LLMs têm evoluído muito nesse quesito, mas cada uma tem seu estilo característico e, para olhos treinados, esse jeitão não passa despercebido.
Reflexão, sim; autoajuda, nem por um baralho: não espere nada remotamente parecido com "siga seu coração e tudo ficará bem" ou "não existem escolhas erradas, apenas lições".
O que Decisã vai fazer é te irritar com as perguntas certas. É como uma amiga que, em vez de dar aval para tudo que você faz, te obriga a refletir sobre o que você evita.
Antes de você sair usando
Decisã não é um produto comercial. Eu não tenho acesso aos dados dos usuários e nem ganho nenhum dinheiro com ela. Trata-se de um experimento gratuito que está disponível para quem quiser usar.
Ela foi criada com seriedade e carinho, mas também com a consciência das suas (e minhas) limitações. Afinal, por mais cuidadoso que eu tenha sido, no fim do dia estamos falando de um prompt que carrega os meus vieses, que vai lidar com os seus vieses, e tudo isso rodando em um LLM que carrega os vieses da OpenAI e até dos engenheiros que trabalham na OpenAI.
Dito isso tudo, é bem divertido e útil também. Usa lá e depois me conta como foi a experiência.